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Inconveniências que ouvimos muito na adoção

Foto do escritor: Letícia da Silva
Letícia da Silva
14 de set.
4 min de leitura

A maioria das pessoas não faz perguntas sobre adoção com a intenção de machucar. Elas perguntam por curiosidade, desconhecimento ou porque cresceram cercadas de tabus. Mas há uma diferença importante entre curiosidade e respeito. Assim como não fazemos perguntas íntimas sobre a concepção de uma criança biológica, também não deveríamos tratar a história de uma adoção como um tema disponível para qualquer conversa.


Muitas famílias adotivas convivem diariamente com comentários que parecem inofensivos para quem fala, mas que reforçam preconceitos, expõem a intimidade da criança ou colocam em dúvida os vínculos familiares. Algumas frases merecem ser aposentadas de uma vez por todas.


"E quando vocês vão ter um filho de vocês?”


Talvez esta seja uma das perguntas mais absurdas que ouvimos com frequência. Ela parte da ideia de que o filho adotivo não é "de verdade" e que a família só estará completa quando nascer um filho biológico. A verdade é simples: quem adota já tem um filho. 


"Agora que vocês adotaram, logo engravidam."


Essa frase costuma ser dita como se a adoção fosse um tratamento para infertilidade. Além de não ter qualquer fundamento científico, ela reduz a adoção a um plano B ou a um caminho temporário até a chegada do "filho verdadeiro". Há famílias que adotam porque desejam adotar. Há famílias que nunca tentaram engravidar. Há famílias que também terão filhos biológicos. A adoção é uma via de parentalidade tão legítima quanto a concepção biológica. 


"Você tem um filho adotivo e outro normal?"


Quando alguém usa essa expressão, geralmente nem percebe o que acabou de dizer. Se um filho é chamado de "normal", qual é a mensagem transmitida sobre o outro? Se um filho chegou à família por via biológica e o outro por meio da adoção, os dois são filhos. Simples assim. A adoção descreve uma forma de constituição familiar, não uma categoria de filho.


"Ele sabe que é adotado?"


Essa pergunta costuma surgir fora de contextos de intimidade. A história da adoção pertence, antes de tudo, à própria criança. A forma, o momento e a profundidade dessa conversa dizem respeito à família e devem respeitar o desenvolvimento infantil. Não cabe a terceiros investigar aspectos tão íntimos.


"Você conhece os pais verdadeiros?"


Pais verdadeiros são aqueles que exercem a parentalidade. Os outros são os pais biológicos ou genitores. E sim, as palavras importam. Quando chamamos apenas os pais biológicos de "verdadeiros", colocamos em dúvida os vínculos afetivos construídos diariamente dentro da família adotiva.


"Ela foi abandonada?"


Nem toda adoção decorre de abandono. Existem histórias marcadas por vulnerabilidade social, violação de direitos, impossibilidade de cuidado, destituição do poder familiar, opção dos genitores no momento do parto e inúmeras outras circunstâncias previstas em lei. Além disso, a história da criança não é assunto para satisfazer a curiosidade alheia.


"Quanto vocês pagaram?"


Apesar de parecer absurdo, essa pergunta ainda é feita. A adoção legal no Brasil não envolve compra de crianças. Além de ofensiva, a pergunta reforça estigmas que desrespeitam tanto as famílias quanto o próprio sistema de proteção à infância. Adoções internacionais também não envolvem acordos financeiros, o que existe é custas processuais e de advogados envolvidos para agir dentro da legalidade.


"Nossa, nem parece adotada!"


Normalmente essa frase pretende ser um elogio. Mas o que ela realmente comunica? Que existe um jeito esperado de um filho adotivo se comportar? Que famílias adotivas deveriam parecer diferentes? A adoção não produz um tipo específico de criança ou de família.


"Que sorte ela teve de encontrar vocês!"


Família é encontro, é construção de vínculos (com suas dores e delícias, independente da via pela qual a família é formada). Adoção não é caridade nem assistencialismo. Portanto, não precisa sentir admiração nem pena.


"Ela tem traços da mãe!"


Quando surge espontaneamente, dentro da própria família, pode até ser um comentário afetuoso. O problema aparece quando há insistência em procurar semelhanças físicas para validar vínculos que não dependem da genética. Nem toda família precisa parecer biologicamente conectada para ser profundamente unida.


“Não tinha criança branca pra vocês adotarem?” 


Sim, já ouvimos essa frase e tivemos duas opções: reagir na defensiva ou usar para refletir. Quando a frase vem de uma pessoa negra, por exemplo, ela carrega conceitos formados em mais de 500 anos de opressão. Portanto, mais do que julgar uma família interracial, a pessoa está demonstrando o quanto traz de dor por tudo que ela e os seus já passaram. De fato, pais brancos nunca vão sentir na pele o que o filho negro passará. E é aí que entra a nossa consciência de que não basta amor, temos que ouvir e estudar muito para compreender ao máximo outras perspectivas diante do mundo.


“Ela é tão inteligente para uma criança adotada, né?


Primeiro de tudo, qual é a necessidade de nomear a adoção? Se fosse uma criança que nasceu por meio de Fertilização In Vitro, você comentaria sobre a inteligência da “criança FIV”? Nunca vi isso acontecer. Outro aspecto que merece reflexão é quando a criança, além de ter sido adotada, é preta. As pessoas ainda se admiram com a beleza e a inteligência de crianças pretas, desumanizando-as. Não permita que façam isso com seus filhos.


>>>> Sempre que você se deparar com perguntas assim inconvenientes, vale propor o exercício:


Você faria essa mesma pergunta se essa criança tivesse nascido biologicamente nessa família? Se a resposta for "não", evite a inconveniência.


Famílias constituídas por adoção não precisam de tratamento especial, mas têm o direito de ter seus vínculos reconhecidos e sua privacidade respeitada. Não existe hierarquia entre filhos biológicos e adotivos.


Estamos escolhendo que tipo de sociedade queremos ensinar às próximas gerações: uma que diferencia filhos pela forma como chegaram ou uma que reconhece que o que faz uma família é o compromisso cotidiano de amar, cuidar, proteger e pertencer.


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