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Normalize devolver o constrangimento aos racistas

Foto do escritor: Letícia da Silva
Letícia da Silva
14 de set.
3 min de leitura

Atualizado: há 6 dias


Devolver o constrangimento não significa, necessariamente, responder com agressividade. Trata-se de interromper a normalização do preconceito, recusar a lógica segundo a qual a pessoa alvo do racismo deve suportar o desconforto enquanto quem praticou a atitude permanece na posição de vítima quando é questionada ou corrigida. O racismo é crime e precisa ser combatido com energia, não importa se houve ou não intenção.


A criança negra é chamada por um apelido racista e fica sem reação. O adolescente escuta uma "brincadeira" sobre seu cabelo e sorri sem graça. O adulto é confundido com funcionário de um local onde está como cliente e decide ignorar. Em muitas situações, a vítima é pressionada a relevar, compreender a intenção do outro, evitar conflitos ou não "estragar o clima". Enquanto isso, quem fez o comentário segue a vida sem qualquer desconforto. Por isso, uma prática importante no enfrentamento ao racismo é aprender a devolver o constrangimento para seu verdadeiro lugar: a atitude preconceituosa.


Comece nomeando o racismo: “o que você disse foi racista e isso é crime”. Assim, a situação passa a exigir reflexão de quem causou o problema.


Se alguém diz: "você é bonito para uma pessoa negra." Você pode responder com ironia: “até que você também para um branco”. Ou pedir esclarecimento, como quem não entendeu: "o que exatamente você quis dizer com isso?". A pessoa passa a ter que explicar um comentário que normalmente faria sem ser questionada.


Outra estratégia comum do racista é esconder preconceitos atrás do humor. Aqui funcionam bem reações objetivas da vítima ou da pessoa antirracista que ouviu a “piada”: "pode me explicar a parte engraçada?" ou "Não entendi a piada. Você pode explicar?". Quando alguém precisa explicar um comentário racista em voz alta, frequentemente percebe sua inadequação ou é levado a assumir explicitamente um preconceito que antes estava disfarçado.


Existem situações em que alguém tenta justificar uma fala preconceituosa dizendo: "é só minha opinião." Racismo não é opinião, é crime. E você deve dizer isso claramente: "opinião é outra coisa. Verbalizar o seu racismo tem consequências legais." Ou ainda: "Quando uma opinião desrespeita a dignidade de um grupo de pessoas, ela deixa de ser apenas uma opinião."


Muitas manifestações racistas acontecem em ambientes familiares. Comentários sobre cabelo, cor da pele, traços físicos ou origem costumam ser relativizados porque vêm de pessoas próximas. Mas intimidade não transforma preconceito em algo aceitável. Quando um parente faz uma observação inadequada, frases simples podem estabelecer limites:


"Esse comentário não é apropriado."

"Não falamos dessa forma aqui."

"Não queremos que nosso filho escute esse tipo de observação."


Não é necessário transformar toda situação em uma discussão extensa. Muitas vezes, a firmeza é mais eficaz do que longas explicações. E até o silêncio proposital pode funcionar pedagogicamente.


Em espaços públicos, quando alguém é tratado de maneira diferente por causa de sua aparência racial, é importante registrar o ocorrido e solicitar esclarecimentos. Pergunte:

"Por que meu filho foi abordado e as outras pessoas não?"

"Qual procedimento está sendo aplicado neste caso?"

"Você pode registrar essa justificativa por escrito?"


Você, como aliado da luta antirracista, precisa mostrar ao seu filho que o racismo é culpa do racista, e não da vítima. O errado é o outro e ele deve ser questionado. Quando os pais intervêm diante de comentários racistas, fazem reclamações formais quando necessário e demonstram que a criança merece respeito, enviam uma mensagem poderosa: "você não está sozinho, você não precisa aceitar isso em silêncio."


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