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Existe criança racista? Como lidar com conflitos na infância

Foto do escritor: Letícia da Silva
Letícia da Silva
14 de set.
3 min de leitura

64% das crianças pretas sofrem o primeiro episódio de racismo dentro da escola, com outra criança. Mas será que criança pode mesmo ser racista? A questão não é a intenção, e sim decidir o que os adultos farão depois que o racismo aconteceu.


Quando uma criança relata ter sofrido racismo, uma das reações mais prejudiciais é minimizar o ocorrido. Expressões como "não foi por mal", “eles são só crianças" ou “foi um caso isolado, nessa fase é normal querer ofender o coleguinha” acabam ensinando que a vítima deve suportar a agressão.


Mas uma convivência construída sobre o silêncio das vítimas representa a acomodação da escola e o pacto da instituição pela permanência do privilégio branco. Uma sociedade mais justa depende de tornar o racismo socialmente desconfortável, interromper piadas, questionar comentários, exigir explicações, registrar ocorrências e estabelecer limites. Não é provocar confronto, mas entender que o preconceito prospera quando encontra silêncio. 


Existe uma diferença importante entre afirmar que uma criança “não compreende totalmente o significado de suas ações” e afirmar que aquilo que aconteceu não foi racismo. Crianças não nascem racistas, mas aprendem muito cedo sobre raça. Elas observam, absorvem e reproduzem mensagens presentes na sociedade desde muito cedo. Elas percebem quem aparece como herói nos filmes, quem ocupa posições de prestígio, quem é representado como bonito, quem é associado a inteligência, sucesso ou poder. Ao mesmo tempo, também observam nas conversas dos adultos e adolescentes, nos livros e filmes quem é alvo de piadas, quem raramente aparece e quem nunca merece ser nomeado. Muito antes de compreender conceitos complexos sobre discriminação, as crianças já estão formando percepções sobre diferenças raciais.


Por isso, quando uma criança chama outra de "macaco", se recusa a brincar por causa da cor da pele ou faz comentários depreciativos sobre cabelos crespos, não estamos diante de um problema porque ela é "má". Estamos diante de um problema porque ela está reproduzindo mensagens que aprendeu em algum lugar. E justamente por isso a intervenção dos adultos é tão importante.


Tão importante quanto a intenção da criança que oprimiu, é o impacto gerado na criança que ouviu. Ela se sentiu humilhada, excluída, menos bonita ou menos pertencente? O sofrimento da vítima é legítimo e não desaparece porque a intenção da outra criança não era causar sofrimento. Quando os adultos se preocupam apenas em provar que não houve maldade, acabam ignorando os efeitos concretos do episódio.


A criança desenvolve sua autoestima no contexto. Ela aprende quem é a partir das mensagens que recebe dos adultos, dos colegas, da escola e da sociedade. Quando uma criança negra sofre uma agressão racial e os adultos respondem minimizando ou pedindo pra relevar, a mensagem implícita é: "sua dor não merece atenção", "seu desconforto é menos importante do que a tranquilidade dos outros", "você deve aprender a suportar".


A criança oprimida aprende, assim, sobre o valor que suas experiências têm para os adultos ao seu redor. Portanto, a escola precisa assumir o seu papel educativo. Isso significa:

  • reconhecer a existência do problema e nomeá-lo como racismo;

  • acolher a criança que sofreu a agressão;

  • registrar o ocorrido;

  • comunicar as famílias;

  • desenvolver ações pedagógicas com os envolvidos;

  • acompanhar os desdobramentos do caso;

  • reforçar práticas antirracistas em toda a comunidade escolar.


Uma escola preparada entende que um episódio racial não afeta apenas os estudantes diretamente envolvidos. Ele impacta o clima escolar e comunica mensagens para todas as crianças que observam a situação.


Ao mesmo tempo, os pais da criança opressora precisam ser chamados a refletir: o que a família pode aprender com essa situação e ensinar à criança? A infância é justamente o período em que preconceitos podem ser identificados e corrigidos. O papel dos pais é ajudar a criança a compreender por que aquele comportamento foi inadequado e como agir de forma diferente no futuro.


Já os pais da criança oprimida precisam acolher, ouvir, deixar claro que ela não tem culpa e o problema não está nela. A vítima precisa sentir que os adultos responsáveis por sua proteção estão atentos e dispostos a agir. Isso inclui dialogar com a escola, acompanhar os desdobramentos do caso e reforçar continuamente referências positivas sobre sua identidade. O objetivo não é criar uma criança permanentemente em alerta, e sim criar uma criança que saiba que merece respeito.


Quando um episódio de racismo é bem conduzido, a criança que praticou a agressão aprende que atitudes têm consequências. A criança que sofreu aprende que sua dor é legítima. As demais crianças aprendem que o tema deve ser debatido. A responsabilidade é compartilhada entre família, escola e sociedade. E quanto mais cedo essa responsabilidade for assumida, maiores serão as chances de formarmos crianças capazes de construir relações respeitosas.


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